Acho que já escrevi algo sobre essa crônica aqui no blog, mas nunca é demais. O Conde e o Passarinho, crônica do Rubem Braga, é uma das coisas que eu ainda devo ler, pensar a respeito e, eventualmente escrever sobre, muitas vezes na vida - espero.
"Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque". A crônica começa assim, com essa frase que sorri e tem a simplicidade como elemento mais bonito. (Gosto da palavra "bonito" e "bonita". Uma coisa "bonita" soa para mim mais bonita do que uma coisa "linda" - acho "linda" tão vulgar, tão comum).
"Ora, aconteceu também um passarinho" - começa o parágrafo seguinte.
"Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho" - abre o terceiro parágrafo que se desenrola até chegar na minha frase preferida: "... é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho".
Eu tenho que comer sacas de arroz e feijão para poder falar do texto dos outros, mas devo dizer que essa vírgula entre o gentil e o ser um passarinho me desmonta! É de uma delicadeza só! Eu curto muito os textos que conseguem impor seu ritmo ao leitor. E o Rubem Braga conseguiu mostrar o quão sensacional é o texto dele em uma frase singela desta! Pois é... que venham as sacas de arroz e feijão!
Bom, agora vou divagar um pouco!
Pode ser uma interpretação totalmente equivocada, mas a sensação que eu tenho é de que este texto é falado por um senhor com aquela típica oscilação entre calma e braveza dos velhinhos que já não são mais compreendidos, ou levados em conta.
"A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não querer ser conde";;; "Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa".
Dizer isso é de uma petulância, de uma intransigência e de uma certeza a que só os velhinhos têm direito!
Adoro esse "tom totalitário", quando ele vem firme e certeiro do mais fraco para a canela do mais forte - por mais que a gente saiba que não vai fazer nem cócegas.
...
"Voai, voai, voai por entre as chaminés do conde, varando as fábricas do conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o conde, voai, voai, voai, passarinho, voai." No final, parece que o Velhinho se acalma, se ajeita na cadeira e deseja o melhor para um mundo que já não lhe diz muito respeito.
Bom, apesar das minhas asneiras, leaim esta crônica e tirem suas próprias conclusões. É uma delícia!
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
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1 comentários:
Oi, Isabel! Que maravilha, né? Viva o velho Braga.
Até
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